Velha Casa Patriarcal: patriarcalismo e farsa em Machado de Assis

April 5, 2017

Em Casa Velha de Machado de Assis, conto publicado entre janeiro de 1885 e fevereiro de 1886, destaca-se uma passagem que descreve “o pequeno mundo” governado com “muita discrição, brandura e justiça” por Dona Antônia, viúva de um ex-ministro de Pedro I, primeiro imperador do Brasil.

“Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. [...] Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.”

O parágrafo concentra observação e análise, parece destoar um pouco da descrição geral da casa que encarna o ancien régime, pois que fora construída pelo avô de Dona Antônia em 1780, depois que voltara da Europa - “donde trouxe ideias de solar e costumes fidalgos”.

Como descrevi recentemente no Latin American Research Review, os enquadramentos sobrepostos no retrato do “pequeno mundo” de Casa Velha, que misturam motivos de uma sociedade primitiva aos da antiguidade clássica e da aristocracia europeia, perdem seu ar arbitrário e ganham um realce inesperado se relacionarmos o comentário em destaque ao famoso livro de Numa Denys Fustel de Coulanges. La Cité antique teve sua primeira edição publicada no ano de 1864, Machado de Assis possuía em sua biblioteca a sexta edição de 1876. O que aproxima esse estudo da observação sobre a capela particular e o túmulo do patriarca no conto é justamente o argumento principal da tese de Coulanges, que parte dos indícios de “crenças primitivas” encontradas na história indo-europeia sobre a alma e a morte para narrar o florescimento, a força e a influência da religião doméstica na formação e desenvolvimento das instituições familiares, jurídicas e políticas da antiguidade.

“Em tempos muito antigos, o túmulo estava no próprio seio da família, no centro da casa, não longe da porta, ‘a fim de que’, cita um antigo, ‘os filhos, tanto ao entrar como ao sair de sua casa, encontrem sempre a seus pais, e, de que cada vez que o façam, lhes dirijam uma invocação’. Deste modo, o antepassado vivia no grêmio dos seus familiares; invisível, mas sempre presente, continuava fazendo parte da família, nesta sendo sempre o pai. Imortal, propício, divino, interessava-se pelo que tinha deixado de mortal sobre a terra; conhecia as suas necessidades, ajudava os seus nas suas fraquezas.”(A Cidade antiga)

Essa passagem nos faz pensar na frequente ausência física do pai na ficção machadiana e na sua suposta presença sobrenatural e influência de além-túmulo sobre o destino da família.

Porém, não se trata de uma justaposição superficial entre o universo senhorial e o da aristocracia antiga. O que convida a refletir sobre o emprego desse anacronismo é que, com seu estudo, Coulanges pretendia evidenciar “as diferenças radicais e essenciais que, para sempre, hão de distinguir estes povos antigos dos da sociedade moderna”. As ideias equívocas sobre Grécia e Roma não só perturbavam as novas gerações da França como se oporiam ao progresso social, segundo o historiador.

Tais considerações não escapariam a Machado de Assis e, no geral, a confusão indicada por Coulanges podia ser aplicada à percepção da elite brasileira do oitocentos, que adorava se mirar e se maquilar em uma psyché francesa.

Em Dom Casmurro as referências à antiguidade clássica e ao patriarcalismo são notáveis. A personalidade de Dona Glória é o primeiro indício do apego da família Santiago aos hábitos dos antigos. Ficara viúva aos trinta e um anos de idade e, ao invés de voltar para Itaguaí, “preferiu ficar perto da igreja” em que fora sepultado o marido. Representa ser uma mulher isenta de vontade própria, cumpre estritamente seus deveres domésticos e restringe sua vida ao lar e a igreja.

“Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele, um resto da pessoa, a mesma alma integral e pura. Mas o uso, esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas.” (Dom Casmurro, Cap. LXXXVII).

Ao abordar a autoridade na família antiga, Coulanges explica que todo o poder paterno provinha dos preceitos da religião doméstica. Basicamente, a família se compunha do pai, da mãe, dos filhos e dos escravos. Tanto as leis gregas como as romanas se pautavam pela mesma regra de ouro patriarcal: a mulher nunca deve governar-se à sua vontade. Viúva devia se submeter aos seus próprios filhos, se os tivesse, na falta destes, ficava sob a tutela dos parentes mais próximos do marido. O adultério era considerado o mais abominável dos crimes, pois quebrava a cadeia dos descendentes, profanava o culto, tornava o lar impuro.

Os Santiago não reproduzem fielmente os preceitos antigos, o que se nota é uma espécie de emulação. Dona Glória se assemelha a uma Pietà, mistura traços do patriarcalismo ao do cristianismo, sintetizando bem a feição tradicional da Igreja romana. Uma paródia da virgem que se dedica a amparar o filho no seu inevitável sacrifício em uma devoção ao Pai eterno, realizado em seu próprio marido, cuja vontade é onipotente.

Um elemento que amplia a perspectiva proposta acima é a casa da família, de importância vital nas memórias de Santiago. Ela simboliza a tentativa de reviver o passado, “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. O prédio assobradado é reconstruído de forma a reproduzir em tudo, “aspecto e economia”, o antigo de Matacavalos. Na sala principal, as mesmas pinturas no teto e nas paredes ajudam a “reconstituir os tempos idos” - grinaldas de flores miúdas com grandes pássaros a levá-las em seus bicos, as figuras das estações nos quatro cantos e, ao centro de cada parede, os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa. História romana adornada com flora e fauna americana, antiguidade e novo mundo.

Coulanges observa que a casa, para os antigos, fora ao mesmo tempo templo e túmulo. Nela celebravam seu culto e encontravam seus deuses, através dela se perpetuava sua família: “O seu lar é um deus, do mesmo modo que as paredes, as portas e a soleira são deuses, e ainda deuses são os marcos que rodeiam seu campo. O túmulo é altar e os seus antepassados são seres divinos”.

Ao final de suas memórias, o Casmurro escreve que os leitores o deveriam ter questionado, ainda no princípio, sobre a razão que o levara a construir a réplica do Engenho Novo, uma vez que possuía “a própria casa velha, na mesma rua antiga”. Justifica que, morta sua mãe, pensou em se mudar para a casa, mas tendo tudo lhe parecido “estranho e adverso”, deixou que a demolissem.

Como compreender tal disparate? Se a residência original nada mais significava, por que razão a reconstruir? Se atribuirmos à casa de Matacavalos as qualidades do lar familiae Pater dos antigos romanos, a obsessão do filho herdeiro ganha um forte propósito.

Porém, sendo corretas tais suposições, a demolição indica a derradeira desgraça dos Santiago. Simbolicamente destruiu-se o santuário doméstico e o filho alienou o túmulo de seus pais. A réplica da antiga casa revela não só a perturbação de seu dono mas uma farsa grosseira. O fracasso é evidente, nova casa só lembra a outra, “mais por efeito de comparação e reflexão que de sentimento”. A pintura do teto e das paredes é “mais ou menos igual”, e o próprio casmurro confessa: “não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.” O que se apresenta é semelhante à tintura que rejuvenesce barbas e cabelos e “apenas conserva o hábito externo”, pois, conforme se dizia nas autópsias; “o interno não aguenta tinta”.

A residência de Matacavalos não é a propriedade original do clã Santiago. A fazenda em Itaguaí teria predicados mais adequados à função de lar. Porém, ela é vista com desprezo pelo filho herdeiro e, ao que tudo indica, pelo resto dos familiares. Assim que o patriarca falecera, a mãe tratou de vender a “fazendola” e os escravos, convertendo o capital em investimentos que fixaram a família de uma vez por todas na corte, para desfrutar das “serenas funções do capitalismo”. Os motivos alegados pela vestal dos Santiago são os mais comoventes, segundo a mentalidade antiga: ficar próximo ao túmulo do marido e viver o resto de seus dias na mesma casa em que vivera os dois últimos anos de casada. Aqui, é possível pensar nos benefícios que uma mulher, vivendo sob a estrita vigilância de um regime patriarcal, poderia obter residindo na corte.

A respeito da atração que a capital do Império exercia sobre os “espíritos femininos” e as possibilidades de maior autonomia, deve-se considerar o conto Três Conseqüências, de 1883. Nele, Machado nos mostra uma jovem viúva rica do interior, D. Mariana Vaz, que recusa a se casar outra vez, até que visita a corte, conhece a Rua do Ouvidor e seu pretendente concorda em morar na capital. Na crônica Vae Soli!, de 1892, oferece-nos um retrato de uma viúva “independente de meios” e cansada de viver só, que estabelece as condições, por meio de um anúncio no jornal, para um novo companheiro.

Thomas Ewbank, que visitou o Rio de Janeiro em 1846, deixou observações, em seu relato de viagem, sobre as viúvas da capital. Comenta o viajante que elas jamais abandonavam os sinais de luto, a não ser que se casassem novamente. Até aquela época era considerado escandaloso que elas dançassem, mesmo que o marido tivesse morrido há muitos anos. Os mais velhos sempre tratavam de lembrar um antigo provérbio: “As viúvas devem sempre chorar seu primeiro amor e nunca aceitar um segundo”. Reclamavam da degenerescência dos costumes e do desaparecimento da “velha virtude portuguesa”. Enquanto os mais jovens contestavam afirmando que, se naqueles tempos as viúvas se casavam logo, o mesmo acontecia antigamente, tal como indicava o adágio: “Viúva rica casada fica”. Mostraram ao viajante umas flores púrpuras, chamadas “lágrimas de viúva”, as quais desabrochavam em pequenos cachos, uma vez ao ano, e logo secavam completamente.

Algumas histórias chamaram a atenção de Ewbank, que ficara hospedado em casa de seu irmão casado com uma brasileira, residentes na rua do Catete. Contaram-lhe que uma senhora da vizinhança enviuvara há pouco tempo e, por estímulo de seu novo pretendente, induzira o único filho, um rapaz de dezoito anos, a entrar para uma ordem religiosa, sob o pretexto de tê-lo prometido a Deus quando era criança e que, cumprindo a promessa, ele poderia livrar a alma de seu pai do Purgatório. O jovem acabou entrando para um convento e sua mãe e o amante teriam se entregado ao gozo das riquezas do falecido e do filho. Uma velha senhora, que pareceu a Ewbank “conhecer bem as coisas”, assegurava que o véu do luto escondia muitas vezes sorrisos, tanto quanto lágrimas, asseverando que algumas viúvas não tinham nenhum motivo para chorar, pois sua perda não era perda alguma. Não se pode   dimensionar a difusão destas historietas, mas não há razão para duvidar de que nos fornecem alguma substância dos costumes da época e de que faziam parte das crônicas da cidade, aquelas tecidas “entre vizinhas” e que Machado sabia bem apreciar.

Não afirmaria que, sob o véu do dedicado luto consagrado à memória do esposo, D. Maria da Glória andasse a rezar missas atrás das portas, como diria o malicioso Mano Cosme, amicíssimo de padre Cabral. Mas não censuro aos que acreditam que uma bonita, jovem, rica e beata viúva sempre tem mais mistérios do que possa desconfiar a maldade alheia.

O ethos patriarcal da oligarquia representada nas obras de Machado de Assis são passíveis de uma dupla leitura. Da perspectiva dominante, são indicativos da cultura de elite, tradição, marca de distinção, civilização e ordem. Por outro ângulo, entrevê-se uma área de sombra, que denuncia a farsa, a máscara que justifica o privilégio e encobre a injustiça e a crueldade das relações de poder e dominação, cuja base é a escravidão. Sob essa ótica, o refinamento intelectual do narrador é a magia, o encanto, o fetiche que pretende dar invisibilidade às mãos que oprimem, reduzindo a história apenas à memória dos senhores do poder.


Cavallini, Marco Cicero. 2016. “Patriarcalismo e farsa em Machado de Assis.” Latin American Research Review51(4): 120-138. DOI: 10.1353/lar.2016.0052


Cover Photo

FERREZ, Gilberto. Aquarelas de Richard Bate: o Rio de Janeiro de 1808-1848. Rio de Janeiro: Galeria Brasiliana, 1965. 

About Author(s)

Marco Cícero Cavallini
Doutor em História pela Unicamp (2005). Atualmente é professor na Universidade Estadual de Maringá. Com pós-doutorado CAPES realizado junto ao Dipartimento di Studi Europei, Americani e Interculturali da Sapienza, Università di Roma. Tem experiência na área de história e literatura, atuando principalmente nos temas: Machado de Assis, crítica e interpretação, história do Brasil, escravidão, literatura e cultura, teorias da história.